A melancolia académica na viragem do milénio

René Magritte. Memória. 1942

Estes apontamentos dedicados às transformações recentes do mundo académico remetem para pensamentos com teias de aranha. Várias vezes para os publicar, outras tantas, desisti. Não vislumbrava interesse. Nem para mim, nem para outrem. Acabariam no limbo não fosse o José Pinheiro Neves, coautor com Pedro Rodrigues Costa e Paula de Vilhena Mascarenhas, do livro Eu sou tu: Uma ecossociologia da individuação (2023), desafiar-me para redigir o prefácio. Proporcionou-me um motivo adicional para materializar estas impressões que trazia adormecidas, mas também atravessadas. Tratava-se de economizar trabalho. Nasceu este monstrinho, de uma assentada. Este documento corresponde à versão original anterior à revisão final. Reli-o apenas uma vez. Não respondo por eventuais imperfeições. Desejo, contudo, que a leitura seja mais prazerosa do que foi a escrita.

“Por estarem conscientes de suas volições e de seus apetites, os homens se crêem livres, mas nem em sonho pensam nas causas que os dispõem a ter essas vontades e esses apetites, porque as ignoram” (Baruch Espinoza. Ética. Primeira Parte – Deus. Apêndice, Autêntica Editora, 2009).

Persiste, teimosa, a mesma dúvida. Pergunto-me se, nas últimas quatro décadas, o homo academicus conseguiu transformar as vontades e os apetites em imperativos e necessidades ou, como diria Espinoza, as causas e as necessidades ignoradas, em virtudes e volições.

Quando a esmola é grande. A industrialização do interior

Obras na zona industrial de Alvaredo, em Melgaço. 2023. Fotografia de João Gigante

Junto o artigo “Quando a esmola é grande. A industrialização do interior”, que, na qualidade de membro do Fórum de Cidadania Pela Erradicação da Pobreza – Braga, publiquei ontem, dia 20.02.2024, no jornal Diário do Minho.

Conferência de António Menéres em Amares – 27 de janeiro

Amigos

No sábado, dia 27 de Janeiro, pelas 4 da tarde, o arquitecto António Menéres vai estar na Biblioteca Municipal de Amares a falar sobre o trabalho que realizou, há exactamente 70 anos atrás, de inventariação da arquitectura popular do concelho. Nessa altura, o Sindicato dos Arquitectos estava a levar a cabo um trabalho extraordinário de inventário da nossa arquitectura vernácula. Na zona Norte, quem coordenou os trabalhos foi o arquitecto Fernando Távora. Quem executou, foram os arquitectos tirocinantes Rui Pimentel (1924-2005) e António Menéres (1930).

E será precisamente com António Menéres que iremos conversar, melhor, ouvir, pois ele com os seus 93 anos é um comunicador extraordinário, para além de um poço de vivências e de sabedoria. Verão que vai ser uma tarde muito bem passada.

Apareçam

abraços

eduardo pires de oliveira

Entrevista de Maria Beatriz Rocha -Trindade ao LusoJornal (04/01/2024)

Para unir é preciso amar, para amar é preciso conhecer-se, para se conhecer é preciso ir ao encontro do outro. (Cardinal Mercier)

Cabe-me a honra e o prazer de participar na apresentação do livro mais recente da Maria Beatriz Rocha Trindade, Em Torno da Mobilidade – Provérbios, Expressões Idiomática, Frases Consagradas (editora almaletra, 2023), sexta, dia 12, pelas 18 horas, na Livraria Centésima Página, em Braga, e sábado, dia 13, pelas 11 horas, no Salão Nobre da Câmara de Melgaço, durante a homenagem que o município lhe vai dedicar.

Sei que não parece, mas costumo preparar-me, bem ou mal, para este tipo de exposição. Neste caso, com particular empenho: a Maria Beatriz Rocha-Trindade é uma das minhas principais, por sinal raras, referências da sociologia portuguesa, como cientista e como pessoa. Neste exercício, deparei com uma entrevista dada ontem, dia 4 de janeiro, ao LusoJornal. Uma hora, nem mais nem menos, de uma “conversa solta” deveras interessante.

Permito-me chamar a atenção para os minutos 46 e seguintes em que Maria Beatriz Rocha-Trindade sustenta que, em Portugal, o único museu da emigração “que realmente existe é o de Melgaço (…) acho que esse é realmente o que existe “, precisando que outros municípios manifestaram a intenção ou estão a desenvolver o projeto, tais como Fafe, Matosinhos, Sabugal, Vilar Formosos ou Fundão, mas, até ao presente, só Melgaço conseguiu dar esse passo. Há mais de 15 anos.

António Marrucho entrevista Maria Beatriz Rocha Trindade. Conversas Soltas. LusoJornal, 04/01/2024

Em Torno da Mobilidade: Provérbios, Expressões Idiomáticas, Frases Consagradas

“En este libro la profesora Rocha-Trindade nos ofrece una nueva y original aportación al conocimiento del tema que tan bien conoce, estudiando las relaciones entre las migraciones y la paremiología. El proverbio, con su capacidad para transmitir de manera breve y sintética una realidad, un conocimiento, una  advertencia o un consejo fruto de la experiencia vital, constituyó a lo largo  del tiempo una forma de comunicación de gran valor, en especial en aquellas  sociedades donde primaba una cultura popular iletrada, motivo por el que las  paremias se constituyeron en un vehículo prioritario para la transmisión oral de enseñanzas. De este modo, en sus diferentes manifestaciones (paremias, adagios, máximas, refranes, aforismos o ditados, como también se denominan en gallego y portugués) pasaron a integrar un rico corpus de conocimientos que, a través de una pedagogía cotidiana y doméstica, se grabaron con firmeza en la memoria y en la conciencia de la población. Escribió el poeta Horacio: “Los que atraviesan los mares cambian de cielo, pero no de alma”, y ciertamente, el que emigra no lo hace solo; más allá de la saudade por la tierra que dejó, por los familiares y amigos ausentes, lleva consigo un acervo cultural asumido desde la infancia que forma parte de su personalidad, de su modo y manera de entender la vida.” (Domingo L. Gonzalez Lopo, “Nota de Abertura”, in Maria Beatriz Rocha-Trindade, Em Torno da Mobilidade: Provérbios, Expressões Idiomáticas, Frases Consagradas, Viseu, Ed. Alma Letra, 2023, pág. 8).

Lançamento do livro Em Torno da Mobilidade: Provérbios, Expressões Idiomáticas, Frases Consagradas, de Maria Beatriz Rocha-Trindade. Hotel Vila Galé – Tavira, 5 de novembro de 2023

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Capítulo “Potencialidade Simbólica da Imagem no Quadro do Percurso Migratório”, in Maria Beatriz Rocha-Trindade, Em Torno da Mobilidade: Provérbios, Expressões Idiomáticas, Frases Consagradas, Viseu, Editora Alma Letra, 2023, págs. 33-54 (pdf).

Ciclo de debates: “Gestão do património cultural: que futuro?”

No quadro das últimas alterações legislativas que prevêem mudanças significativas na gestão do Património Cultural, o Doutoramento em Estudos Culturais da Universidade do Minho, com o apoio institucional do Centro do Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) e da Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas (ELACH), em parceria com Centro de Investigação em Justiça e Governação (JusGov) e o Centro Cidadania Digital & Sustentabilidade Tecnológica (CitDig), organiza um ciclo de debates, intitulado: “Gestão do património cultural: que futuro?”

Estas iniciativas vão ocorrer nos dias 29 de novembro e 6 de dezembro, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, entre as 21h e as 23h.

Amadeo de Souza-Cardoso, Fortaleza, 1912.

Segundo o programa abaixo, o primeiro debate, subordinado ao tema, “Novo quadro legal da gestão do património cultural”, conta com a participação de Elvira Rebelo (DRCN), Susana Marques (TNSJ), Pedro Silva (ESE/PPorto) e Manuel Protásio (ED/UMinho). A conversa será moderada por Manuel Gama (CECS).

A segunda sessão dedica-se ao tema, “Exequibilidade do novo quadro legal da gestão do património cultural, implicações”, estarão presente Paulo Lopes Silva (CMG), Alexandra Lima (MDDSousa), Aida Mata (AAT) e Armando Malheiro (ASPA), e conta com a moderação do Professor Luís Cunha (ICS).

Cartaz programa do “Ciclo de Debates”

A modalidade dos debates segue uma dinâmica de conversa com moderação. Ou seja, o moderador vai lançando questões, mas as pessoas são livres de se interpelar em estilo de conversa. No final, haverá espaço para que o público presente faça questões.

Apelamos à presença daqueles que manifestam interesse por estas questões e desejam participar no debate!

As duas caras: A oliveira e o leão

Por António Amaro das Neves

“Tenho particular apreço pelos autores que ousam acrescentar novas camadas de sentido a realidades, designadamente do património histórico e cultural, cuja interpretação parece saturada ao nível do senso comum vulgar ou sábio. António Amaro das Neves consegue-o a propósito do Guimarães, o Homem das Duas Caras, estátua icónica dos vimaranenses, no texto surpreendente “As duas caras: A oliveira e o leão”, escrito para o livro Sociologia Indisciplinada. São obras como esta que costumo eleger como fonte de inspiração e me motivam, confesso, uma ponta de inveja.

Segue, em pdf, a versão a cores do capítulo “As duas caras: A oliveira e o leão”, da autoria de António Amaro das Neves, do livro Sociologia Indisciplinada (coordenado por Rita Ribeiro, Joaquim Costa e Alice Delerue Matos), Edições Húmus, 2022, pp. 55-68″ (Albertino Gonçalves).

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António Amaro das Neves, historiador, mestre em História das Populações, investigador do CITCEM. Foi presidente da direção da Sociedade Martins Sarmento e coordenador editorial da Revista de Guimarães. Autor, coautor e organizador de diversas publicações. Mantém ativo, desde 2007, o blogue Memórias de Araduca, dedicado à história, às tradições e à cultura de Guimarães e do Minho.

O cocho dos porcos numa cozinha da Idade Moderna

Estou sentada na minha cozinha e olho em volta. Respira-se limpeza e higiene. Vêm-me à memória outras cozinhas. A cozinha da minha avó que, segundo o olhar do meu primo, ainda criança e a residir em Lisboa, tinha as “paredes pintadas com tinta preta”. Era o fumo que saía da lareira e que com o tempo se ía acumulando nas paredes. Este fenómeno acontecia em todas as cozinhas rurais, desde há muitos séculos. Por baixo da cozinha da minha avó estava o curral do porco. Em outras cozinhas de casas térreas o porco poderia estar num espaço não muito distante. Uma organização doméstica que se repetia por quase todas as casas beirãs, e por esse Portugal fora. Homens e animais viviam em franca convivência.
Eu já não cresci com esta realidade. No ano do meu nascimento os meus pais compraram um fogão de ferro, que então estava na moda e permitia um cozinhar mais limpo e higiénico. Tinha ainda a vantagem de ter um forno sempre pronto para fazer inúmeras iguarias. Também tínhamos um fogão de gás que se usava para comidas mais rápidas. O Fogão de lenha tinha imbutidas duas panelas. Uma servia para ter sempre água quente disponível a outra servia para cozer a lavagem dos porcos. Este, não vivia próximo da cozinha. Estava um pouco mais afastado, mas não muito longe.
Mas esta é uma organização de uma casa do século XX. Nos séculos passados as cozinhas e os seus acessos eram bem diferentes, muito próximas da cozinha da minha avó.
Deixo as cozinhas familiares e entro numa cozinha monástica da Idade Moderna. As dinâmicas são diferentes. A cozinha do Mosteiro de Tibães, por exemplo, tem uma dimensão que quase se assemelha às nossas casas actuais. Tem uma ante-cozinha, que liga directamente ao Refeitório. Aqui se guardavam as louças, se localizam os fogões de pedra, que não são mais do que fogareiros imbutidos. No espaço central da cozinha está uma enorme lareira que nunca se apagava. Sobre a fogueira o caldeirão central, à volta as rodas dos presuntos e dos chouriços; do lado nascente as pias, onde haveria sempre água e onde se faziam as lavagens; do outro lado, virada a poente, a casa do forno. Ao centro está uma mesa de pedra para serviço de algumas refeições aos criados. Do lado poente, junto à porta de entrada, o cocho dos porcos. Já fora da cozinha encontramos uma pia para despejos e uma mesa para cortar as carnes e matar pequenos animais. Esta cozinha tinha ainda no seu interior um andar superior onde dormiria o cozinheiro.
Portanto, nesta cozinha viviam, num convívio diário, o cozinheiro e o porco. O mesmo acontecia em todas as outras cozinhas até ao século XX. Mais perto ou mais afastado, ou mesmo dentro da cozinha, o porco convivia com os seus donos e era naturalmente como os seus restos que se alimentava.
Esta realidade não foi assim entendida pelos arquitectos que nos últimos anos dirigiram as obras do Mosteiro de Tibães. Entendeu-se na altura que o porco não poderia ter estado dentro da cozinha. Apesar de ainda lá terem ficado as estruturas do espaço que lhe era reservado, foi interpretado como um uso posterior à extinção do Mosteiro, quando a cozinha deixou de cumprir todas as suas funções. O cocho dos porcos foi destruído.
Nesse entretanto, alguns documentos trouxeram a lume a realidade da sua existência junto da cozinha. É exemplo o Mosteiro de São Bento de Coimbra, onde, em 1758, se diz que o “curral dos porcos, que tem a pia junto da cozinha em forma que todas as lavages vão cahir nella e a outra parte tem hum postigo pera se barrer a cozinha e por elle lançar o sisco ao curral e os sobejos da hortaliça e de tudo o mais que pode servir aos porcos”. Mas não só o cocho dos porcos poderia estar dentro ou ao lado da cozinha. No Mosteiro de Alpendurada, pela mesma altura, fez-se no seu interior uma capoeira de madeira.
De facto, perante o conceito que hoje temos do que é uma cozinha e de como deve estar organizada, vai uma diferença abismal para com as cozinhas dos tempos mais antigos. Contudo, em nada se distanciavam do objectivo de apresentar à mesa uma comida “limpa e concertada”. Esse era e continua a ser o desafio!

Santo Antão da Barca: Transladação, festa e história de um lugar em Alfândega da Fé (Excertos)

Santo Antão da Barca. Alfândega da Fé

As festas são fenómenos multifacetados, abrangentes e mobilizadores em que as coletividades se (re)veem, (re)compõem e (re)atualizam. Oferecem-se como um dos temas privilegiados das ciências sociais. Vários colegas do Departamento de Sociologia, da Universidade do Minho, dedicaram-lhes pesquisas e publicações, nomeadamente o António Joaquim Costa e o Jean-Yves Durand. No que me respeita, abordei a romaria da Sra. da Agonia, de Viana do Castelo, e várias festividades de Cabeceiras de Basto. Encontra-se no prelo o livro São João de Sobrado. A festa da Bugiada e Mouriscada, de que sou coautor com a Rita Ribeiro, o Manuel Pinto, o Alberto Fernandes, o Luís Cunha e o Luís António Santos. O Fernando Bessa Ribeiro, atual diretor do Departamento de Sociologia, coordenou a obra Santo Antão da Barca: Transladação, festa e história de um lugar em Alfândega da Fé,  editada pela Húmus em 2019 (a partir de um relatório redigido em 2014). Trata-se do resultado de uma investigação coletiva (que inclui, também, textos de Paulo Jablonski, Luísa Cortinhas e Manuela Ribeiro; e fotos de Pedro Colaço do Rosário, Guilherme Roseler Carvalho e Ismael Afonso) motivada pela perspetiva de submersão da capela de Santo Antão da Barca pela construção de uma albufeira para produção de energia elétrica no rio Sabor. O capítulo 6, “A vida também é feita de fé e de festa: Procissões e arraiais em Santo Antão da Barca”, da autoria de Paulo Jablonski e Luísa Cortinhas, manifesta-se particularmente interessante não só por configurar um bom exemplo de etnografia da organização de uma festa popular mas também pela relevâncias de algumas observações. Por exemplo, cumpre às mulheres a “tarefa de enfeitar os andores”, com a exceção do Divino Salvador da Barca, porque, por tradição, “‘só os homens podem ver o Divino Salvador da Barca despido’. Os homens ficam sozinhos na Capela, fecham a porta e mudam-Lhe a roupa” (pág. 202). Segue um pdf com excertos do livro Santo Antão da Barca: Transladação, festa e história de um lugar em Alfândega da Fé: a capa, a folha de rosto, o Índice Geral, a Introdução, o Capítulo 6 e as Considerações Finais.   

Fernando Bessa Ribeiro é Doutorado em Ciências Sociais e agregado em Sociologia. É Professor Associado do Departamento de Sociologia da Universidade do Minho e Investigador Integrado do CICS.NOVA.UMinho. Capitalismo e desenvolvimento, género e sexualidade e infeção pelo VIH/sida constituem os seus principais temas de investigação, sobre os quais publicou diversos livros e artigos em revistas nacionais e estrangeiras.

Noite, Serão e Concurso dos Medos em Melgaço – 20 e 28 de outubro

Em Melgaço, em outubro,  a noite é dos medos. Na próxima sexta, dia 20, ocorre a segunda sessão dos Serões dos Medos, numa cozinha antiga de uma casa incrível mas acolhedora de que sou, de algum modo, uma espécie de anfitrião. No sábado, dia 28, será a “noite dos medos” propriamente dita: um concurso e uma dramatização coletiva tremenda pelas ruas e no castelo. A aproveitar porque só acontece uma vez por ano, num tempo excecional de comunhão entre mortos e vivos. Para consultar o programa, carregar na seguinte imagem do cartaz ou neste link: https://www.cm-melgaco.pt/noite-dos-medos/.

Para antecipar o ambiente das próximas noites em Melgaço, segue uma interpretação genial da ária “Ah mio cor”, da ópera Alcina, (1735), composta por Georg Friedrich Händel.

Georg Friedrich Händle. Ah mio cor. Alcina, Ato 2. Soprano: Julia Kirchner; marionete: Manuela Linshalm. Konzerthaus Wien, 26 de maio de 2021